Terça-feira, 26 de Junho de 2007

Lapsos da Memória...

“E pensar que quando o sol nasceu éramos só eu, a praia e o obelisco. Aliás, como temos sido desde há muito tempo. Chego, ainda noite, sento-me, encosto-me ao obelisco, mesmo debaixo do discurso d’El-Rei e comungo com a praia a Memória do crepúsculo de ontem e a aurora que está para chegar. É bom ver o reflexo do mundo no mar. Ver as memórias subir e descer nas ondas, movimentos de agonizantes a afogar ou de peixes que saltam e deixam atrás de si a cauda de um cometa líquido, as gotinhas que filtram a luz e a fraccionam. Chego sempre cedo. Gosto de sentir o vento a bater-me na cara ainda com as gotículas do orvalho da madrugada. Sabem a sal. Sabem a lágrimas. Gosto de ver a vida a renascer a cada dia como se cada dia, de facto, fosse o único dia. E é. É-o porque o futuro está longe demais para podermos conhecer o amanhã.

Haverá algo mais incerto que o amanhã? Há. O Mar desta Memória. Este Mar que já tanto tirou, tanto deu, tanto suspendeu, tanto matou… Este Mar de guerras, de revoltas, de sigilos, de testemunhos, de toques. Este Mar que comunga comigo todos os dias a grandiosidade da vida, ainda que seja de uma vida fracassada, de uma vida deambulatória, que erra em trilhos que não conheço e que vem sempre parar a este obelisco farol, a este sítio onde não sou a primeira a olhar para o mar e a implorar que alguém ressuscite nessas águas e me devolva a bússola de uma existência autónoma de passados e de memórias que me agrilhoam a esta praia. A esta praia de ladrões que enterraram o meu passado bem debaixo do mausoléu. A esta praia cheia deste povo mesquinho que não respeita as histórias, deste povo que é genuinamente português moderno decadente, deste povo sem ambição. A esta praia onde, apesar e (talvez) por causa de tantas imperfeições, me sinto verdadeiramente em casa.

(…)

Na areia desta praia muitas histórias foram escritas, mas há uma, símbolo de força interior para os que ficam, que só deixou este anel como prova de amor eterno a quem vem a este sítio olhar o mar e esperar pelo que não vem.”

publicado por MB às 04:54
link do post | explanare | favorito
4 comentários:
De http://shakermaker.blogs.sapo.pt a 26 de Junho de 2007 às 21:43
Ora viva!

É com certeza uma praia portuguesa...
Com gente a jogar raquetes por todo o lado, a pisarem-nos a toalha de qualquer maneira e a berrar o nome dos filhos aos nossos ouvidos.
É uma praia portuguesa com certeza!

Óptimo texto,
e sem qualquer lapso que me venha à memória.

Um abraço...
shakermaker
De KI a 27 de Junho de 2007 às 18:10
Olá MB adoro símbolos, talvez daí ofascínio que tenho pelo Egipto, para mim o que simboliza afecto tem um valor maior, uma carta, um bilhete, uma dedicatória num livro assumem importãncia exclusiva e desmedida.

Sim, na vida tudo é incerto, há que amordaçar os momentos em nós, sugar-lhes a alma e sabermos sorrir mesmo em dias tristes, e hoje meio descolorido... enveredar pelas recordações que nos transportam de volta ao sorriso...

Carregamos o peso da nossa história pessoal, temos apenas de o saber levitar na medida do sentir, da alma que em nós vive e nos chama a prosseguir seguindo como o Universo...

Um beijo e tudo de bom :)
De KI a 27 de Junho de 2007 às 18:58
Voltei para escrever que te nomeei no Trampolim como uma das 7 Maravilhas da Blogoesfera.

beijos :)
De Vasko a 7 de Julho de 2007 às 02:30
Olá. Só pra dizer que adorei o texto, embora não saiba se é mesmo teu, devido ás aspas, mas de qualquer modo, estou aqui porque tenho um blog que se iniciou devido a algo que vivi tendo o Obelisco como pano de fundo.

Se quiseres visita. Já adicionei o teu aos meus links, porque gostei do que aqui vi.

http://obeliscodamemoria.blogspot.com/

Comentar post

Creative Commons License
Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons.

© Marta Barbosa 2007

recentes scripta

Sibila est

Hipotermia (II)

Quarto de Pandora

António

Quiet Nights of Quiet Sta...

Catarse

RP sem Croquetes!

Por una Cabeza

Imortal

porta

Monólogos de Valium

Tardes de Saudade e um Ge...

...

Moinhos de Vento

Bilhete para o fim do dia

designed by Rui Barbosa