Quinta-feira, 1 de Março de 2007

Nós no singular (e um dia de chuva)

Lembras-te do dia em que ficamos a ver a chuva a cair?

Lembras-te de ver aqueles pedacinhos de céu a cair sobre nós?

Lembras-te de como achávamos que em vez de ser o céu a aproximar-se

da terra, éramos nós que começávamos a levitar? Lembras-te?

Como era possível esquecer? A perenidade de um momento tão fugaz,

a fugacidade de um momento tão perene…

Nesse dia, tudo parou com um simples estalar de dedos, o próprio

tempo suspendeu o seu curso por segundos, provavelmente por menos.

Mas parou, e nós ficamos imóveis com ele, como se, de facto,

mais não houvesse para além de nós e da chuva que víamos cair.

Rasgaste um sorriso quando te disse: “Mentiu-me quem me disse que

o tempo era infinitamente elástico.” E mais uma vez estalaste os dedos

para fazer parar o que corre sem rédeas. Cavalo bravo que não se deixa

domar. Correu por entre a chuva e foi para bem longe, levando consigo

a fugacidade de um momento, deixando comigo a perene

saudade de um dia de chuva. Um dia de chuva…

Lembras-te de te dizer que odiava a chuva?

Lembras-te de me perguntares se continuava a odiar? Lembras-te?

Como era possível esquecer? Como era possível esquecer

o olhar que não deixa embaciar a memória, para que continuemos a

alimentar a ausência que nos une?

Como era possível esquecer? Eu e tu. Nós no singular. Na singularidade

das contrariedades da efemeridade da vida, na singularidade

da distância que nos aproxima, na singularidade de um dia de

chuva. Nós, na singularidade da saudade que nos faz viver

até ao momento em que juntos possamos ver novamente a chuva a cair.

Nós no singular da efemeridade de um tempo que não é,

definitivamente, elástico. Nós no singular de um mundo de intrigas.

Nós na perenidade das recordações. Nós no singular e um dia de chuva.
publicado por MB às 14:47
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1 comentário:
De kituta a 5 de Abril de 2007 às 16:13
Bem, tenho que admitir que já não vinha aqui há algum tempo, mas já me arrependi... Invejo-te, queria ter sido eu a escrever isto... Lol... Tou a brincar mas a verdade é que és realmente uma artista e desta vez não discordo com absolutamente nada, é impossível... Parabéns! Tou sem palavras. Adorei conhecer-te e espero, embora ache que vai ser difícil, que nunca deixemos de ser amigas... Adoro-te muiiitooo, linda!! Fica bem... e sê feliz, é um favor que me fazes...;p Beijinhos

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