Terça-feira, 30 de Junho de 2009

Ilha

Deixei de ter coisas interessantes para escrever, como se secasse dentro de mim, gota a gota, o pedacinho de céu que eu guardava para os dias de noite cerrada. Há dias em que eu me esqueço que já houve sol, mesmo que os meus olhos não se abram por causa da luz.

Somos optimistas de momento e não de vida. Porque a vida ensinou-nos que quem manda é a filosofia do pessimismo que nos mostra que, quando tudo está mal, tudo conspira ardentemente para piorar. Há dias assim, de incansáveis frustrações e desânimos, casados para toda a vida, inseparáveis nos olhos que se cruzam com os nossos. Vemos muitos reflexos que não compreendemos e não sabemos ver. A cegueira é a da alma. Do coração. Das mãos. Dos olhos que a alma, o coração e as mãos usam para ver.

Opções que não sabemos explicar, acções que não queríamos fazer. E nem por isso aprendemos. Somos tendenciosamente feitos para o erro, feitos para falhar e continuar a falhar, aprendendo apenas como falhar com mais erros.

Já nada de interessante tenho para escrever. Deixei de sentir, deixei de fazer das minhas mãos um instrumento da alma. Assusta-me esta anomia mórbida de querer ser um monte de pedras depositado no fundo de um rio a ver a água correr. Era disto que eu tinha receio: de me acomodar a ver a vida passar ao meu lado, sem saber o que se passa. Eu tinha medo deste medo de pensar e perceber a diferença da vida que era. A diferença desse passado (im)perfeito cuja acção já não se prolonga no presente. Tinha medo da dificuldade em ser um ser racional, de sentir este vazio em que o mundo me tornou.

Cansei-me de não ter coisas novas para escrever e para viver. Esta parte da cidade é uma ilha de desesperos atados e de novidades que nunca chegam.

 

música: Para nunca mais mentir - Ornatos Violeta
publicado por MB às 19:56
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2 comentários:
De KI a 3 de Julho de 2009 às 00:23
Às vezes aparece essa cena do nada apetecer. Mas a vida apetece. Escrever tb umas na nossa cabeça no meio dos sonhos e por entre eles, outras algures entre o papel e o écran...

Vive!!

beijos obeliscolares ;)
De MartaGomes a 16 de Agosto de 2009 às 23:04
Olá martinha!
Já nao passava pelo teu blog há tempos infinitos...

Sim marta, conseguiste colar novamente os meus olhos ao écran do computador...nao digas que nao tens nada de interessante para escrever porq tens sempre qualquer coisa agradável de ler para publicar...podias fazer uma escrita livre, apenas com algumas palvras que te viessem à cabeça, colocavas um ponto final no fim e esse pequeno paragrafo, já me parecia uma bela obra d'arte...e sabes pq?

porque tu tens o dom da palavra, sabes pensar, sabes escrever e acima de tudo, sabes passar a mensagem!

Muitos beijinhos,
Marta Gomes.

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