Sábado, 20 de Junho de 2009

o ano que sobra

Há sempre um dia que sobra na nossa vida. Um dia que gostavamos que não tivesse acontecido. Não pelo que se viveu, mas pelo que não se repete. O dia de um adeus que não acaba, de uma eterna despedida que se vai cravando mais no peito, mais na vida. Mais nos olhos.  Mais no fazer de conta que está tudo bem, que não nos custa, que já não mói, que já não mata.

Às vezes sentimo-nos abusivamente usados, actores secundários de um amor ora oportuno, ora inconveniente, ora errado, ora solitário. Amamos muito na primeira pessoa, no egoísmo sádico de querermos tudo e ficarmos com tudo. Ou com nada, porque no reverso da medalha muitos são os que “em troca de nada dão tudo na vida”.  Estou cansada de pedir desculpa por uma palavra que não errei, pelas promessas que cumpro, pelo sono que continuo a não dormir. Pedir desculpa por ser leal. Por querer dar e não poder. Pedir desculpa por me esbofetearem e por eu continuar a oferecer a outra face, sempre na esperança que vai ser diferente. Quando achamos que vai ser diferente, é outro estalo que levamos na face já dorida de tanto chorar. E é em silêncio que permanecemos.

Brincamos com o que mais nos dói, numa saga de palhaço triste que pinta toda a cara de cores alegres para não vejamos o coração partido. E há sempre um dia que nos dói mais e que podia sobrar na nossa vida, pela mortificação de que o que não se faz fica sempre para outro dia, mesmo que ele não chegue.

Sim, eu sou patética ao recordar dias. Sim, eu sei que sou ridícula por não achar que era errado o que mais certo e verdadeiro vivi. E cá estou eu a amar na primeira pessoa do singular. E percebo que há coisas que têm  que vir no plural. Um plural de dois vivido, mas não por mim. Há um dia que eu gostava que sobrasse na minha vida, e este dia era hoje. Só para eu não me lembrar que me esqueceste. Só para não me lembrar que estou de fora, completamente de fora a tentar guardar a tua voz na cabeça a dizer que vais dormir durante 15 minutos antes de me levares ao comboio. Só para não me lembrar que aquele beijo à porta do teu quarto foi o último.”

 

 

 

365 dias a viver a metade. A viver a saudade.

 

música: Almost Lover - A Fine Frenzy
publicado por MB às 23:20
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