Domingo, 22 de Março de 2009

Presente

 

Queria neste poema a cor dos teus olhos

e queria em cada verso o som da tua voz:

depois, queria que o poema tivesse a forma

do teu corpo, e que ao contar cada sílaba

os meus dedos encontrassem os teus,

fazendo a sombra que acaba no amor.


 

Queria juntar as palavras como os corpos

se juntam, e obedecer à única sintaxe

que dá um sentido à vida; depois,

repetiria todas as palavras que juntei

até perderem o sentido, nesse confuso

murmúrio em que termina o amor.


 

E queria que a cor dos teus olhos e o som

da tua voz saíssem dos meus versos,

dando-me a forma do teu corpo; depois,

dir-te-ia que já não é preciso contar

as sílabas, nem repetir as palavras do poema,

para saber o que significa o amor.


 

Então, dar-te-ia o poema de onde saíste,

como a caixa vazia da memória, e levar-te-ia

pela mão, contando os passos do amor.


 


 

Nuno Júdice

 

música: Cantiga de Amor - Rádio Macau
publicado por MB às 00:01
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1 comentário:
De David Pereira a 24 de Março de 2009 às 00:01
Como flui a poesia em ti.
Este poema é do melhor que já li. Não tinha o prazer de o conhecer, mas fiquei sem palavras para uma beleza só comparada à que tu exaltas.

Beijinhos

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