Sexta-feira, 6 de Fevereiro de 2009

Cartas a um jovem desconhecido (II)

 

Perto do jardim havia uma rua muito estreitinha onde corriam as pedras do chão numa espécie de disputa com as ervas e com as formigas. Não estás a ver onde fica? Pois não, claro que não estás. Há quanto tempo não vês?


 

E quando te pergunto isto não quero dizer que estejas cego, quero perceber há quanto tempo não vês com o coração. Gostava mesmo de saber há quanto tempo não fechas os olhos para me ver. Há quanto tempo não fechas os olhos para veres saudade.


 

É que de vez em quando a luz apaga-se e ficamos todos cegos, numa cegueira que queima a alma e nos queima o “nós” que criámos, naquele passado imperfeito onde criávamos. A escuridão é irmã gémea da solidão entranhada das cadeiras que se põem ao pé de janelas de espera, dos livros que se lêem na esperança que das páginas salte a voz que se anseia na noite.


 

Vais dizer-me que é ridículo o que te escrevo, mas mesmo a tinta desta carta é solidão que cresce da caneta. Esta é uma carta escrita às escuras. Tal como muitas vezes tatuamos no pescoço a letra daquela música. Corda. Uma letra corda.


 

Somos bichos da noite. Mas não penses que a noite das estrelas. Somos bichos da noite sem estrelas do braille da cegueira da nossa solidão. E depois, leva muito a habituarmos os nossos olhos a essa escuridão interior. Demorei muito tempo a ver o jardim e a rua estreitinha. E demorei mais tempo ainda a ver o caracol que lutava na subida da ladeira. O pequeno caracol.


 

Na cegueira, onde hoje vivo e de onde te escrevo, aprendi a ver com o coração e de olhos fechados. E a minha vida é um filme mudo que se apresenta à alma, daqueles filmes acompanhados a piano. Já alguma vez viste um desses?


 

Acho que aprendemos a ver os prismas mais bonitos daquilo que temos quando os olhos vivem, por tempos, com as irmãs cegueira e solidão. Ainda que não passem de memórias. Como se houvesse alguma coisa para além da memória. Um dia havemos de conversar sobre a memória.


 

Hoje, só queria que parasses para ver de olhos fechados.”

música: A lack of color - Ben Gibbard
publicado por MB às 22:02
link do post | explanare | favorito
2 comentários:
De Marina a 7 de Fevereiro de 2009 às 00:32
Adorei o texto (para não variar)
"Gostava mesmo de saber há quanto tempo não fechas os olhos para me ver. Há quanto tempo não fechas os olhos para veres saudade" - se soubesses como tb sinto isso.
Mas por vezes acho que estou numa escuridão exactamente igual... um deserto escuro que começa dentro de mim e nao tem fim em lugar nenhum. E começo a achar que foi um verdadeiro sabio que disse que o amor era cego...
Enfim, continua a postar!
goxmuiti
bj
De KI a 8 de Fevereiro de 2009 às 23:19
É tão especial ver de olhos fechados q n se pode ensinar, mas pode-se educar para q se tenha essa capacidade...

gosto de vir por aqui, pq aqui (tb) me encontro.

beijos cheios de abraços.

Comentar post

recentes scripta

Sibila est

Hipotermia (II)

Quarto de Pandora

António

Quiet Nights of Quiet Sta...

Catarse

RP sem Croquetes!

Por una Cabeza

Imortal

porta

Monólogos de Valium

Tardes de Saudade e um Ge...

...

Moinhos de Vento

Bilhete para o fim do dia

designed by Rui Barbosa