Segunda-feira, 1 de Setembro de 2008

Talvez se chame Saudade

 

Haverá, com certeza, mais coisas no céu do que o mar. E mais coisas numa mala do que fechos. Portanto, haverá em nós mais do que imaginámos. Só que há alturas em que o tempo discorre tão lentamente que não temos percepções reais. Acho que me habituei às drogas e percebi como é que o tempo processa a sua evolução. Tenho saudades, claro que tenho. Muitas e gostava que as coisas pudessem ser como no antes, sem qualquer desprezo pelo que se passou no até aqui. Porque tenho saudades de tudo, até de não perceber o tempo. Só não me peçam para explicar como é que se percebe o tempo. É uma experiência puramente egoísta e introspectiva, de uma sobrevivência um tanto complicada.


 

Há mais coisas no céu. Mas o mar continua lá. Noutro dia estava uma borboleta no Obelisco. Nunca lá tinha visto uma borboleta. Na pedra, quieta. Fim de tarde como outros, como tantos outros “deprimentes, no mínimo” (apesar de comigo nunca ser no mínimo, sempre no máximo). Só que naquele dia havia uma borboleta, laranja e preta. Ninguém desembarcou, mas eu percebi que, dentro do tempo que passa, há mais coisas numa mala do que fechos. E os que fecham, também podem abrir asas e voar dentro dessa mala. Nessa mala e nesse céu (e em nós) há memórias, há ecos, há obeliscos, há músicas, há livros inacabados, há muitas noites sem dormir, há orações antes de deitar, há procuras ofegantes de estados, há alegrias, algumas tristezas, há telefonemas que não se fazem e cartas que não se escrevem, há uma quantidade enorme de disparates, há um Memorial, há poesia, há saudades da terra, um Sinal e uma Luz que nunca se apaga.


 

Haverá, com certeza mais coisas no céu do que o mar. Há um desejo de nadar rumo ao horizonte para perguntar todas as coisas que sempre quis saber e não ter medo de ser inoportuna. Saber porque há silêncio onde esperamos um murmúrio, descobrir onde ficou a nossa capacidade de acreditar ou perceber porque começámos a gostar tanto de vermelho.


 

Não sei se alguma vez saberei o que é estar em paz comigo, como ouço muitos dizerem; se calhar quando morrer, provavelmente nem aí. Não me interessa. “Triste de quem é feliz” Acho que não seria potencialmente feliz se não fosse um ser inquieto e deprimente (no mínimo). Um bocadinho amarga, mas com um magnum de “almêndoas” no Obelisco em noites geladas o tom até pode ficar mais doce. É que o Elvis não morreu...

música: Comptine d'un autre été - Yann Tierson
publicado por MB às 23:34
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2 comentários:
De marta gomes a 2 de Setembro de 2008 às 00:16
Pois é, às vezes descobrimos que dentro de nós ou de alguém existe algo que vai muito além das nossas expectativas...
foi o que aconteceu comigo quando realmente te comecei a conhecer, e quando dei por mim, já tinha descoberto um ser humano com MUITO dentro dela. Isso alegrou-me de tal forma, pois acredito que como tu ainda pode existir muita gente neste "Céu"!

adoro-te martinha...


muitos beijinhos marta!!!



De Laú a 2 de Setembro de 2008 às 18:33
Mais uma vez deixaste-me sem palavras...
O mundo é confuso e a vida segue sempre ao mesmo ritmo... Nós é que a interpretámos ou muito depressa ou muito devagar.
Sim... definitivamente o céu tem muito mais que o mar... O céu tem as estrelas, tem a luz e tem aquilo que nós, nos nossos sonhos desejamos: o infinito...
Porque não há realização maior do que alcançar a liberdade do infinito...

Te adoro Piccola!

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© Marta Barbosa 2007

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