Domingo, 11 de Fevereiro de 2007

Memórias de um Olhar

Olho-te, então, contra a perspectiva do efémero. Contra a corrente

que te arrasta pela eternidade para bem longe. Olho-te como se

tudo acabasse agora e te continuasse a olhar na perpétua luz que

nos afaga. Olho-te como se o efémero nada importasse, como se o

breve instante em que me tocas durasse até a um outro, mesmo que

entre eles se instalem vidas, milénios, angústias e crepúsculos.

Olho-te, então, contra a perspectiva do efémero porque sei que

não partes, que não podes partir, que não sabes partir. Olho-te

na perspectiva de um ininterrupto amor que, também, não sabemos definir.

E, apesar de não o sabermos definir, sabemos vivê-lo: no veemente olhar

que nos leva para outra dimensão, no toque que arrepia, no beijo que se cala,

no silêncio que grita “Amo-te”, nas mãos que não entrelaçamos, mas

que balouçam lado a lado, companheiras do efémero para sempre.

Olho-te como se o mundo e a eternidade coubessem nos teus olhos.

Porque quando te olho são, realmente, só os teus olhos que vejo. E neles,

não o espelho da tua, mas da minha alma.

E é o saber que vivendo em ti, vives em mim que torna

o efémero irreal. Como se, de facto, a morte não

fosse capaz de manipular as nossas vidas, nem o tempo fosse capaz

de aplacar as tempestades que nos amarram um ao outro, nem o próprio

Amor fosse capaz de nos ludibriar com falsos vislumbres de felicidade.

Olho-te, então, contra a perspectiva do efémero,

porque sei que não há longe nem distância,

porque sei que o tempo é um adereço,

porque sei que a morte é um embuste;

porque sei que quando te olho a eternidade pára.

E somos só eu, tu e os nossos olhos.

 

publicado por MB às 21:32
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2 comentários:
De AEu a 13 de Fevereiro de 2007 às 23:08
"Olhar" assim, nem a melhor objectiva, nem o melhor fotografo conseguirá captar tão bem como tu o descreves. E no entanto, pelos vistos, até existe. A perenidade desse olhar é tão envolvente e especial que, acho, só mesmo a paixão o poderá captar! Sim porque sem relação não faz sentido! E aí é que reside por vezes a grande questão! Por vezes sou só o "eu", e o "tu" não está lá para retribuir um pouco que seja! Contudo, até pode existir olhar assim.
Esse olhar encerra uma intensidade tal que até pode ser dramático, até doentio, até obsessivo ! E terá sentido??? O sentido que terá de ter é o da vida! O olhar é consequência dessa mesma VIDA! Vida no sentido pleno.

A poesia, essa por vezes é também um embuste, uma forma de nos enganarmos a nós próprios e viver a ilusão de:

ALGO que arde e não se vê,
um ferimento que dói e não se sente,
um contentamento descontente
uma dor que desatina e não faz doer

"um não querer mais que bem querer;
estar solitário e andar por entre a gente;
nunca contentar-se de contente;
e cuidar que se ganha em se perder;"

"querer estar preso por vontade;
servir a quem vence, o vencedor;
ter com quem nos mata lealdade"

Acredito que esse ALGO existe, mas não por si, nem mesmo virtual! É uma construção, construção permanente e nunca acabada... até à eternidade... VIDA com luz e em plenitude!

Viva a VIDA!!!...
De sandra_scrapbook a 20 de Fevereiro de 2007 às 21:07
Parabéns pelo blog!!
Estive a ler e adorei o teu trabalho também. Obrigada pelo teu comentário. Espero que "me visites" mais vezes.. Ainda bem que gostaste do meu trabalho...É bom saber que há pessoas que gostam e apreciam este tipo de arte. Obrigada mais uma vez. Continua a escrever...Beijinhos
Sandra Babo

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© Marta Barbosa 2007

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