Segunda-feira, 11 de Outubro de 2010

Quarto de Pandora

Uma noite para esquecer, para não mais lembrar, para esconder nas pregas das rugas da memória. Uma mão que devagarinho nos sobe o peito e nos aperta a garganta em subtilezas sôfregas de vingança. Uma noite para esquecer que se dormiu. Há dias que deviam passar sem as noites do interregno régio da escuridão. Uma febre de calores polares e de frios tropicais de topos montanhosos. Verdadeiramente uma noite para esquecer. Uma noite que não existiu, pronto, passou, já nem me lembro do que falava. Uma noite? Qual noite? Qual febre?

Podia ter escrito um ensaio filosófico sobre a essência das coisas ou sobre a importância do meu almofadão encostado à varanda do meu quarto. É um cantinho delicioso de se degustar. Mas febril no papel, mas febril nos intrépidos olhos que me espreitam da rua. Podia ter escrito uma dúzia de linhas de rajada e depois nenhuma delas arriscar compreender. Não é mesmo isso entender as coisas? Iluminar a alma num lampejo intermitente e triste e depois abandonar a sabedoria como se nunca lhe houvéssemos tocado numa carícia?

Maldita noite que me atravessou o corpo e me atirou para a cama com lençóis de amarras de suores e pesadelos. Mão febril, a da noite. Uma noite para esquecer. Para não mais ser falada ou copiada em protestos rancorosos de lucidez.

A febre é como os fantasmas. E não arrisco continuar na comparação. Que seja uma metáfora mal construída e cada um a perceba como quiser. A minha cabeça hoje não é senhora de si para pensar. Pior mesmo quando a febre nos traz ao quarto os fantasmas que guardamos numa caixa de pandora debaixo da cama de um outro quarto que ficou para trás. Fechado, muito fechadinho e lacrado, lacrado para que toda a força do mundo o não pudesse abrir. Maldita noite de febre que me assomou o corpo. Maldita sensação de corpo que abandona a vontade da alma. Maldita noite de maldita febre e malditas dores.

Sono, muito sono. Ou, como diria Mário de Sá-Carneiro,

 

“Castelos desmantelados,

Leões alados sem juba.”

música: Espaço Impossível- Tiago Bettencourt
publicado por MB às 12:22
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© Marta Barbosa 2007

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