Quarta-feira, 31 de Março de 2010

Bilhete para o fim do dia

 

Porque nunca sabemos a que horas a vida volta. São muitos os bancos vazios no comboio, ao seu lado apenas a mala, o casaco e o guarda-chuva. Dia mau nos olhos. Nem sempre esperamos pela nossa vida; às vezes pela dos que se cruzam connosco quando procuram um banco que não esteja vazio, na trepidação do comboio pelos carris que levam não sei onde. A passagem da janela vai acendendo as luzes, anunciando a noite.

 

 

 

Bom dia, Cansaço.

 

 

 

E o vocativo voa nos círculos da expansão até que bata em nada. Espero também pela vida dela. Pobre, como o dia conspirou para que o crepúsculo fosse um comboio para a noite... Com bancos vazios. Não há vocativos de ternura, não agora. Tropeçou neles e caiu. Só a mala, o casaco e o guarda-chuva. Braga é uma cidade horrível para quem não gosta de chuva. E de esperar pela vida. Se calhar não mora lá e está, como eu, de passagem. Há dias que nos cansam. E jamais acabam, ainda que vivamos milhões deles depois.

 

Não há, neste comboio, bancos que não estejam vazios, mas ela remexe na mala a tralha que para nada serve e continua à procura. E o comboio continua, à sua passagem, a acender o luzeiro da noite.

 

Ainda me falta uma hora de viagem. E ela continua à procura, não sabe de quê, por isso é que continua à procura.

 

 

 

 

 

 

 

20h12min | 31 de Março, estão 10ºC no exterior e eu odeio viajar sozinha

 

música: Casa - Rodrigo Leão
publicado por MB às 22:30
link do post | explanare | favorito
|

Creative Commons License
Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons.

© Marta Barbosa 2007

recentes scripta

Sibila est

Hipotermia (II)

Quarto de Pandora

António

Quiet Nights of Quiet Sta...

Catarse

RP sem Croquetes!

Por una Cabeza

Imortal

porta

Monólogos de Valium

Tardes de Saudade e um Ge...

...

Moinhos de Vento

Bilhete para o fim do dia

designed by Rui Barbosa