Sexta-feira, 31 de Julho de 2009

Pedra Filosofal

Dizia que descascar maçãs exercitava o cérebro. Era por isso que o canivete saltava sempre para as mãos dele no fim do almoço. Depois distribuía por todos os pedacinhos de fruta que ia cortando. Não que faltassem mais facas ou mais fruta. Aquela sabia muito melhor. Às vezes porque nos obrigava a comê-la. Às vezes porque não precisávamos de sujar as mãos… mimava-nos muito. E era por isso que o mimávamos também. É muito fácil amar pessoas assim. E amá-las para sempre.

Atrasámo-nos, muitas vezes, alguns segundos a dizer coisas muito importantes. Eu sou uma atrasada e uma inoportuna - ou então é o destino que acha que eu devo chegar sempre no fim do pelotão e perder as provas todas. Acho que só com ele soube ir a tempo e dizer-lhe a importância que ele tem. Enquanto foi tempo de ele ouvir e de o viver. Enquanto foi a tempo de voltarmos ao Obelisco que me deu a conhecer, de conversarmos sobre o nada, sobre o que não se dizia. Enquanto foi a tempo de nos ensinar a todos a viver com o optimismo dos que sabem que já não há hipóteses e mesmo assim continuam a sorrir e a congelar os momentos para mais tarde recordar. Tenho vestida uma camisola que era dele. Diz a letras vermelhas “keep na open mind”. Tem quatro filas de marinheiros e, no meio deles, um pirata. Sempre encarou a vida de forma só dele e ensinou-me a criar uma forma só minha de ver as coisas.

Hoje, como no ano passado, este é um dia que ainda vale muito a pena. Vale por ser dele e por todas as coisas que não o deixam morrer em nós. Hoje o meu Tio faz anos.

 

Parabéns, Colego.

 

música: Ain't no mountain - Marvin Gaye & Tammi Terrell
publicado por MB às 00:00
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1 comentário:
De KI a 16 de Agosto de 2009 às 14:47
Que texto fantástico Martinha, adorei ler. Obrigada pela partilha que pessoa excelente e maravilhosa tiveste tu o prazer de conhecer.

Parabéns aos dois.

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© Marta Barbosa 2007

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