Domingo, 5 de Julho de 2009

Quarto de um coração sem Sentidos

Era um homem perdido no meio da cidade. Como se o meio da cidade não fosse já uma posição geográfica que fica depois do início e antes do fim. Era um homem perdido depois do início da cidade e antes do seu fim. Havia facas voadoras a persegui-lo e já não levava consigo ¼ do coração. As facas voadoras do destino mutilavam quem lhe aparecesse à frente, sem escolher o lugar ou o tempo. Era por isso que procurava uma terra de ninguém: para que as facas não conhecessem o caminho e jamais alguém se sentisse proprietário do pedaço de gente, perdão, de chão em que se queria plantar.

Perdera o quarto. Do coração. Perdera o quarto que muito lhe custara ser retirado e agora seguia perdido com a casa mutilada e vazia a fazer corrente de ar. Gelado e inóspito ar de cidade com facas voadoras e proprietárias do mundo inteiro. Perdido, perdera um quarto da casa da alma. As facas arrancaram-lhe o quarto do coração, como uma bomba roubaria a sala dos amores de uma casa na Bósnia.

Era um homem perdido no meio de uma cidade chamada Saudade, à procura de ¼ de coração que as facas voadoras lhe roubaram no quarto do coração onde se deixou ser luz da sombra e o frio arrepiante do fogo.

Acabava de ficar sem olhos e, assim, as facas voadoras deixaram-no perdido numa saudade cega de dores onde já nem as lágrimas podiam cair. Na escuridão a dor não se vê, só se sente percorrer, a passo lento de verme, todas as veias do corpo, num circuito interno de ininterruptas visitas guiadas à agonia da alma. Não se vê a dor, não se vêem as lágrimas – nem se ouvem em brumas de soluços convulsionados, como daquelas arcadas do violoncelo que choravam. Essas podiam, mas só porque ainda tinham olhos e coração inteiro na sua posse, ainda que partido, no peito.

Uma cidade chamada saudade e um homem perdido nela, sem olhos ou coração que se digne a ser tal. A saudade fica mesmo depois do fim do início e antes do começo do fim. É um espaço de ninguém, reclamado por todos, labirinto sem Minotauro, assustador na sua ocupada falta de preenchimento.

Era um homem perdido no meio da cidade, que perdera já um ¼ do coração, a visão do futuro e a capacidade de sentir. Depressa as facas trataram de lhe roubar as mãos, levando o toque (o teu toque) e o calor do tocado. Ladras! Essas facas voadoras do destino e o seu sadismo desprezível são ladrões, assassinos, traficantes e gente de vida. Da vida que roubam nas pessoas que tomam de assalto. São parasitas de próteses. Ladras! Essas facas que roubaram as mãos de um homem perdido no meio de uma cidade a que chamamos saudade e apagamos dos nossos mapas oficiais, por medo de lá parar um dia por engano.

Era de enganos a vida daquele homem. Seria incapaz, a partir de então, de experimentar sensações. Sentimos falta, essencialmente, daquilo que sabemos que não volta. Sentimos falta desse v de volta que não se vira na nossa direcção, desse v de vida verdadeira, desse v… desse v que existe, sem se ver, na saudade.

Foi então que esse homem percebeu que já não conseguia sequer sentir dor, a não ser essa que mata mormente. Porque se o corpo ia desaparecendo lentamente e os sentidos começavam a tornar-se vácuo do vácuo, aquela coisa gosmenta e detestável chamada dor da alma e apelidada de sanguessuga do espírito não interessava às facas voadoras do destino e a esse seu sadismo detestável.

Era um homem perdido na escuridão da saudade. Sem olhos que fossem mãos do corpo ou mãos que fossem olhos da alma. Sem ¼ do coração e sem o quarto onde amou. Sozinho na companhia dos conhecidos que desconhecem as mutilações das veias onde o sangue se perde no caminho. Perdido e parado. É um homem perdido e parado na saudade, estagnado no destino faquir. Roubaram-lhe a esperança que tinha no coração, nos olhos e nas mãos. Já não sente, não vê e não escreve. Saudade sem esperança. E sem luz, sem frio arrepiante. Sem quarto.

Lixeira a céu aberto. Era um homem perdido no meio de uma lixeira a céu aberto. Condenado a viver ali, preso sem correntes, condenado a viver ali com os restos de uma memória que sonhou, mas que começava a ser difícil de acreditar. Viver sem sentido. Sentidos.

 

música: Going under - Evanescence
publicado por MB às 23:56
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2 comentários:
De patroa do Bem a 7 de Julho de 2009 às 19:16
N tinha mais nenhum sítio pa desopilar, por isso vai ser mesmo aqui:
R.R. "pesidente",com o seu fato único(n tem mais nenhum)
Isto de ser competente tem mt q se lhe diga. Há clubes q apreciam outros q não...enfim!!!
De Solidao Atarefada a 4 de Agosto de 2009 às 15:54
Bom texto.

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© Marta Barbosa 2007

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