Terça-feira, 7 de Abril de 2009

Via Sacra

Corremos para todo o lado, em todo o lado. Corremos porque já não temos tempo para pensar que corremos, porque achamos que correndo chegamos mais depressa à paz. É complicado assinar armistícios com os outros, quando não sabemos que nome temos que assinar no contrato de paz dentro de nós.


 

Como se chama a paz que eu quero?


 

É radical reduzir a paz a um nome. Por isso é que não assinamos nada e continuamos assim, escravos da nossa guerra interior. Escravos das guerras com os outros que deixamos em suspenso, à espera que a vida resolva ou que nós resolvamos a vida.

A vida é uma corrida contra o tempo, mas todos temos tempo para escancarar janelas e festejar o Natal. E na Páscoa? Alguém tem tempo para correr contra o tempo para arranjar duas horas de conversa solitária com a alma? Claro que não. Tempo há para exibir uma fé oca. Não sei se pela vida que passou por mim neste último ano ou se pela maturação que se vai proporcionando, este ano vejo tudo diferente, de fora, dolorosa e desanimadamente de fora. Um sabatismo voluntariamente forçado para tentar encontrar uma fonte de energia que me faça ser capaz de voltar, de perceber que temos que ser nós a enfrentar a hipocrisia dos outros, dando-lhes a outra face para espezinharem também.

Tenho que parar de correr para suster a respiração. Encontrar-me com o simultaneamente para além de mim e meu. Tentar alcançar aquela ideia do morrer para renascer. Perceber que do caos há-de vir uma ressurreição. Pensar na vida, na morte, no sofrimento. Pensar no tomarmos a nossa cruz todos os dias, quando deixam de nos ajudar a carregá-la e nos atiram ao chão, quando nos limpam o rosto, quando nos despem e nos humilham...

Tudo é tanto e o tempo é tão pouco para perceber a vida, perceber o sofrimento. Há uns tempos tinha que explicar a um grupo de jovens, com quem tento trabalhar, o sofrimento. E expliquei. Até posso percebê-lo, mas não o aceito. E não entendo o facto de a vida ser para uns tudo e para outros nada.


 

Não, não sei onde se encontra a paz interior. Sei que não é aqui. Estou de partida à procura. Com a cruz às costas.

música: Can't get it out of my head - John Paul White
publicado por MB às 22:54
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2 comentários:
De Marina a 8 de Abril de 2009 às 20:33
Ninguém sabe onde está a paz e ninguém está preparado para aceitar o sofrimento. Acho que muito poucos o entendem. Espero, no entanto que encontres essa paz e que não precises de compreender o sofrimento, porque, mais do que muita gente, tu mereces ser feliz.

Boa Páscoa.
Goxti
bj
De Laú a 11 de Abril de 2009 às 20:53
Afilhada... Lindo o teu texto. Aliás... nada diferente seria de esperar.

Por vezes olhamos à nossa volta e sentimos a falta de algo que não sabemos muito bem o quê...
Tenho a certeza de que vais ter muito sucesso nessa tua busca pela "paz"... E que as estrelas te sorriam sempre, para que o teu rosto se ilumine dessa maneira fantástica cada vez que sorris.
beijoka. Txi goto

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© Marta Barbosa 2007

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