Quinta-feira, 5 de Março de 2009

Cartas a um jovem desconhecido (III)

 

Acendes a luz, por favor? Sim, quando passares aí pela porta. Um dia, quem sabe, na lonjura dos anos através dos quais de te vejo partir, vais explicar-me porque nunca respondes às cartas que te escrevo. Não são de amor, não são ridículas. São cartas, meu caro colega. Apenas cartas para ter uma fenda de luz onde possa iludir-me que te falo. Que te vejo os olhos, que te toco as mãos, que te sinto o calor e o cheiro e as mãos. Que te sei vivo. Será que me vês?

Sei que é vil esta minha vocação epistolar, um tanto estranha, quase mórbida. Acho que são cartas de guerra, como as do Lobo Antunes. Às vezes tão estranhas, quase patéticas.

Podias então acender a luz? É só porque quando vem a noite deixa de haver luz para ler. E deste-me muito na cabeça por querer ler às escuras. Ainda tenho as memórias piedosas que me deste para ler e, dentro, o marcador mais bonito. Também tu a dá-lo. Um obelisco a marcar as memórias piedosas de uma história que se partiu ao meio.

Eu sei que nunca tinhas e nunca tens tempo. A vida é um relógio doido a acelerar os segundos e quando nos damos conta já não há nada para desacelerar. O mundo torna-se relativo perante as coisas que perdemos. Mas podias mandar um sinal. Responder às minhas cartas...

Eu ergui-me e caminhei, mas estou há cinco meses no deserto.


 

Tenho muitas saudades tuas, Colego. Fazes-me muita falta.

música: For Martha - The Smashing Pumpkins
publicado por MB às 18:23
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2 comentários:
De KI a 6 de Março de 2009 às 10:55
Existem saudades eternas. Tu sabes encontrar as respostas.

Marta apetece-me mudar para a blogspot, mandas-me o teu mail para te dar o link?

trapezista@sapo.pt

Beijos.
De Laú a 16 de Março de 2009 às 13:30
Lindo mesmo!

Te adoro, sabes?

Beijo, afilhada;D

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© Marta Barbosa 2007

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