Sexta-feira, 27 de Outubro de 2006

Poetas – quem vos dera tal graça…

Hoje ouvi uma coisa que me chocou profundamente, e eu, este ano, estou acostumada a ouvir barbaridades do mais variado tipo, mas isso não é o ponto da questão desta vez, quem sabe numa próxima. O certo é que numa aula, que costumeiramente me deixa frustrada (se bem que hoje ouvi algo demasiado agradável ao ouvido, mas, também, demasiado bom para mim), foi proferida tal sentença que por pouco não provoquei um sismo com uma queda!
“Os poetas são uns tristes.”
Os poetas são uns tristes… E porque somos tristes? E integro-me já na parte ferida porque me sinto parte da parte ferida. Segundo quem proferiu tal juízo, os poetas são uns tristes porque evidenciam tédio, melancolia, dúvidas existenciais, anseios impossíveis de abraçar o mundo e muitas outras coisas que culminam num ponto que só demonstrou a sua tentativa de, citando a querida professora de Inglês, atirar barro à parede – a morte. A maior parte suicida-se, a outra parte morre numa idade ainda precoce, outros morrem ao abandono e muitas outras coisas que preferi nem sequer ouvir.
Os poetas são uns tristes… Mas ninguém se lembra dos que morrem no seio da família, dos que têm uma mão a segurar a sua no último suspiro, dos que morrem, tal como muitos dos simples mortais, ao cabo de uma doença prolongada. E se é certo que alguns se suicidam é porque sofrem o que todos os que se suicidam sentem – desilusão; a Despondency, de Antero de Quental. E o anseio, a dúvida existencial e o que referi acima são idiossincrasias dos poetas exclusivamente, sem dúvida! A diferença é que o poeta não tem medo de se expressar: a palavra é o seu escudo, a sua arma e o seu propósito. E por ser tão sincero no seu discurso fingido (que aqui é sinónimo de racionalizado) é rotulado de “triste”, como se fosse uma raça a abater por portar uma doença infecto-contagiosa!
Todavia, por muito que fantasiem e façam floreados, o poeta é aquele que observa, que capta, que se aproxima da verdadeira índole da realidade. O poeta é o que ama incondicionalmente. É o ser terrestre acariciado com os poderes dos deuses, embora continue a ser um humano na sua dimensão mais fraca – tem anseios, tem medos, tem sentimentos de culpa, de tristeza, de amor… – todos têm! Mas nunca será um triste! Porque, como pode ser triste quem mais sabe ver a beleza do mundo?
José Gomes Ferreira condensou todo o meu discurso em quatro versos:
 
“Mas é do destino
De quem ama
Ouvir um violino
Até na lama.”
 
E fico por aqui, pois isto já está demasiado grande e pode tornar-se imperceptível aos que carinhosamente visitam o Ipsa Ego. Mas antes de terminar deixo uma pergunta no ar. Será que os poetas são mesmo uns tristes ou será que os tristes são os que não são poetas?
publicado por MB às 22:29
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5 comentários:
De AEu a 30 de Outubro de 2006 às 19:29
Eu sei que não possuo dons de poeta, e no entanto por vezes também ando triste. Triste porque a nossa sociedade, na realidade, não está bem, para além dos valores, cuja ausência, também concordo, atravessa todos os "estratos" etários, o horizonte aparece sombrio.
Mas a tristeza que eu falo, não é uma tristeza de choro, chamo-lhe mais de lucidez. E aí apesar de não ser poeta (tu és???), considero que, como pessoa política, tenho obrigação de ter essa lucidez, como direito e obrigação. Quem não sente esse direito e essa obrigação, considero que estará desenquadrado. Mas também observo que essa é a maioria, infelizmente, e inclui os políticos profissionais e responsáveis, que em função dos jogos de poder, vão passando pela vida pavoneando-se e exibindo os seus troféus.
É que a lucidez pode realmente trazer tristeza, e daí a máxima "beber para esquecer". É certo que, na realidade anda quase toda a gente bêbada, e daí todos alegres. Mas bem no fundo da realidade, eles são uns tristes... Beijinhos, porque senão os caracteres esgotam-se... Continuarei mais tarde, com um pouco de "alegria". AEu
De marta_bebeda@hotmail.com a 3 de Novembro de 2006 às 19:17
palavras para k^??? sempre k leio o teu blog fico sempre sem palavras... vou deixar d o ver... pronto nao tava a bribncar
nunca t faria uma mldade destas ... k horrivel
ahh e ja agora .. nao e preciso ser se poeta para s ser trite ou viceversa a tristeza e um sentimento natural k s infiltra e so nos deixa em paz kundo ker ... pronto isto foi um aparte nem parece eu
De Álvaro a 3 de Novembro de 2006 às 19:21
Olá Martinha, não te preocupes ao ouvir esses " tristes ", porque triste é quem se faz passar por triste. Para criticar não custa nem é preciso muito esforço para dizer essas tais "barbaridades do mais variado tipo", porque é como tu dizes, não gosto de ti. Porquê? Porque não gosto! Se eles não gostam de ler, arranjam desculpas do mesmo género, ou seja, estão a por a nu o seu lado ignorante de egoístas na sociedade. Meus caros infelizmente tanto morrem Serralheiros, Agricultores como morrem Poetas, só com uma pequena diferença são mais conhecidos, logo dá-se mais ênfase à questão. Martocas continua a levar o algodão para essas aulas para não te dar nenhum chilique .
Beijinhos
De Maria Araújo a 17 de Novembro de 2006 às 22:17
Em primeiro lugar peço desculpa pela suposta inesperada intervenção!!
Concordo inteiramente contigo...um poeta é uma pessoa que à partida tem garantido a isenção a esse ignóbil título"tristes".Esse adjectivo está totalmente fora do do círculo em que eles se inserem na medida em que por tristes se faz entender os pobres de espírito.São tristes porque sofrem com a dor de pensar,não "tristes" da forma que lhes queriam conotar...

Gostei do blog!
Voltarei!


De MB a 19 de Novembro de 2006 às 12:02
todos são bem-vindos a este espaço. volte sempre que quiser. espero que continue a gostar do meu, como chamo carinhosamente, bloguinho.

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© Marta Barbosa 2007

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