Domingo, 25 de Maio de 2008

Azul infinito

 

Hoje achei que o mundo era um sítio bonito. Poderia até já ter chegado a essa conclusão antes, mas não há tempo para perder e o mundo é um grande relógio com grande ponteiros assassinos. Num tempo cronometrado de uma viagem de comboio vi que o mundo era um sitio bonito. Não costuma haver tempo, mas hoje tirei aquela hora do meu dia para olhar para o céu. Mas olhar com olhos de ver, não o olhar diário para ver se é de chuva ou de sol a previsão. Durante uma hora estive a olhar para o céu. A vê-lo passar na rapidez dos carris, no estatismo das paragens, na minha mente vazia, cheia dos meus pensamentos. E ao olhar o céu só me lembrava de uma frase: “O mundo é tão bonito e eu tenho tanta pena de morrer.” É da avó do Saramago e ele partilhou-a no seu livro Pequenas Memórias connosco.

Na viagem de comboio a a olhar para o céu, vi os meus olhos, também, reflectidos no vidro. Lembrei-me da viagem de sexta. Um miúdo que se veio encostar a mim para poder ver a linha


 

Estás triste?”

Não meu amor, estou só cansada.”


 

E que mais não é o cansaço do que a tristeza de não aguentar a cruz de todos os dias? Ninguém pede ajuda directamente. Enviamos “um sinal desse” estado vazio de sentido, na esperança que crianças


 

Estás triste?”


 

Sim, estou triste porque o cansaço começa a pesar muito e eu que devia aguentar o mundo, não sei se aguento com a minha mala. Estou triste por não poder ser como tu: ter uma bata da escola e a esperança que o mundo é um sitio bonito a tempo inteiro; sentar no colo de alguém de cada vez que o fim do dia chega. Sim, meu amor, estou triste de tanto estar cansada. É só isso, Olhos Vivos, triste de tanto cansar. Tu gostas de olhar para a linha porque sentes a adrenalina do comboio a deslizar nos carris, nessa novidade extasiante. Eu olho para a linha para lá ver a minha vida a passar. Depressa, depressa...devagar.”


 

Acordem-me quando o mundo não for um sitio bonito só durante uma hora, quando o mundo fizer sentido a tempo inteiro. Eu gostava de morrer num dia desses. Em que o céu fosse bonito durante uma hora para alguém. Todos procuramos o sentido. Já alguém o encontrou?


 


 

música: O mundo ao contrário - Xutos&Pontapés
publicado por MB às 23:12
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4 comentários:
De KI a 26 de Maio de 2008 às 00:34
Gosto de azul. Acredito q o mundo seja um sítio bom depende sempre da nossa perspectiva e como o queremos ver. Esse foi o único livro q li por inteiro do Saramago, ainda assim na diagonal.

Uma boa semana.

Beijos M.
De Babs a 27 de Maio de 2008 às 19:37
Bonito texto. Já não comentava aqui há muito tempo, porque tenho acompanhado os teus posts pelos feeds :)
E lembro-me dessa frase “O mundo é tão bonito e eu tenho tanta pena de morrer.” Faz-me lembrar os meus avós.

Beijinhos
De aeu a 28 de Maio de 2008 às 16:34
Oh colega, é claro que o mundo é bonito, e o azul do céu nem sequer pode ser descrito na sua imensa beleza. Parece tudo tão trivial com La Palice , mas a maior parte das vezes falta-nos aquela hora para observar! E isso é bom... ter tempo para olhar! No comboio até podemos ter essa hora, sem nos desequilibrar , saborear... até sonhar!

E é também bonito que o consigas fazer agora... pois amanhã o tempo é sempre mais escasso!

Cada dia que passa parece que vivemos mais a correr e sem tempo para voar...! Eu gosto de voar! Quando encontro algum espaço de tempo...

Beijinhos! AEu
De Laú a 2 de Junho de 2008 às 17:29
Deixaste-me sem palavras. Penso que ainda ninguém entendeu alguns porquês que aparecem. Sei que pensar que "o mundo é um sítio bonito" é uma daquelas afirmações de lugares comuns que, por vezes, só nos apetece matar quem as inventou. Não. o mundo também pode ser um lugar muito feio. Nós por vezes fazemos do mundo um lugar feio - o que não é de modo nenhum o teu caso. Mas por vezes, por mais que tentemos lutar por um mundo mais bonito, as forças começam a falhar porque tudo parece contra nós.
E houve alguém que um dia me disse que a vida era uma viagem de comboio. Tinha aragens onde entravam pessoas e onde saíam pessoas. Mas a viagem tinha de continuar independentemente de quem tivesse saído. hoje percebo que por vezes somos obrigadas a sair nesta paragem. E depois é tarde demais.
Tu tens a vida toda pela frente, tens um espírito enorme, tens uma força em ti que me faz orgulhar todos os dias de te ter conhecido. E não esqueças que és tu que controlas as tuas viagens.
Gosto muito de ti minha pequenina. P'ra valer!

PS- quando precisares de um colo ao fim do dia, eu estou aqui.
Ah, escreves bem, Piccola! ;)

Beijãooooooooooooooooooooooooooooo

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© Marta Barbosa 2007

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