Quarta-feira, 14 de Maio de 2008

Leaving Auschwitz

 

Se movermos a cabeça para trás vemos tudo o que passou. As coisas evoluem e neófitos dão mais um passo no caminho que nos leva a sermos mais, a sermos melhores. E se movermos outra vez a cabeça para trás, vemos que tudo passou numa pequeníssima fracção de segundo. Tão pequena que às vezes não percebemos em que hiato de tempo nos puseram.

O tempo, na sua velocidade centrífuga, leva-nos na espiral de um medo que não se justifica porque somos sempre melhores do que pensamos, do que os outros nos fazem pensar que somos.

O campo de concentração abre as portas para deixar sair os sobreviventes que se souberam impôr na rede de trapézios sem protecção, neste pedacinho de surreal realidade onde só vive quem sabe pôr a máscara para respirar no meio do gás. E ao abrir devagarinho as portas, o dia torna-se mais cinzento, porque o verdadeiro desafio está só a começar.

Não digo que estou triste por deixar de caloira. Mas grito que fazia tudo outra vez, só para ter a oportunidade de conhecer as pessoas que foram meus companheiros de luta ou “carcereiros”. Não digo que não vou ter saudades, porque eu criei defesas nestes meses que nunca teria criado de outra maneira. Tive que me tornar mais dura. Comigo e com os outros.

Não sei se os meus Doutores continuam a visitar o blog, mas deixo a todos uma palavra de agradecimento. Uns por me terem atirado ao chão e proporcionado o meu crescimento, nessa forma bruta de se ser na selva. Outros por me terem levantado do chão quando os outros para lá me atiravam.

Aos meus Padrinhos nada mais tenho que fazer senão uma vénia (desta vez sincera e sentida) em que raspe não só as unhas, mas toda a mão, o braço ou o corpo inteiro, num rastejar de vitória, por terem sido os pilares de uma resistência ao gás que começava a tornar o ar agonizante de quando em vez. Acho que já não preciso mais “procurar família”, eu sei onde ela está e onde sempre esteve. Seguimos sempre juntos, como se peregrinássemos todos rumo ao mesmo paraíso. Formamos uma Resistência e foi bom lutar neste secretismo conspiratório.

Eu fui, eu estive,eu caí, eu levantei-me. Sobrevivemos ao campo de concentração. As portas abriram-se hoje debaixo de um temporal. É hora de partir.

música: Anti-repressivos - Donna Maria
publicado por MB às 23:47
link do post | explanare | favorito
|
4 comentários:
De Silvéria a 18 de Maio de 2008 às 14:09
Querida Marta (ou devo dizer "Anne Frank", tendo em conta o contexto?), concordo contigo! Foram meses de aprendizagem sim, onde ganhamos defesas e fortalecemos laços. Lembro-me perfeitamente de ter simpatizado com X e Y no início e no fim me relacionar melhor com outras pessoas. Não digo que X e Y tenham sido desilusões, apenas que, com o tempo, fui crescendo e aperfeiçoando pontos de vista, simpatias, gostos. Talvez mudasse algumas coisas se tivesse oportunidade, mas não me arrependo dos passos que dei. Fui eu própria, muitos não gostaram, paciência.

Daqui a dois anos, se tudo correr bem, o nosso discurso será precisamente o contrário, o de praxistas e não de praxados. Quero, como não me canso de dizer, maltratar caloirinhos... eheheh! Mentira! Quero, acima de tudo, que gostem da praxe e que não pensem em desistir como muitos de nós pensamos e alguns fizeram mesmo. Claro que desistir faz parte, praxe não combina com o temperamento de qualquer pessoa e não devemos estar lá só porque os outros estão. Mas acredito piamente que, pelo menos nós e mais algumas pessoas, seremos capazes de respeitar a liberdade individual de cada um, sem impor regras desnecessárias ou humilharmos pelo mero prazer de humilhar. Farei os possíveis para que ninguém desista por estar desiludido connosco, futuros doutores, mas porque apenas não se identifica com as actividades praxísticas.

Orgulho-me do nosso curso, do que aprendemos na praxe e fora dela. Sim, porque considero que quem desistiu da praxe ou quem nem sequer nunca participou dela são pessoas como nós, apenas com uma resistência diferente. Talvez haja quem não concorde, eu cá repito que praxe não é tudo, apenas é uma experiência que eu quis ter.

Bjnhos,
Manienta desaparecida do amor! :)
De Vasko a 18 de Maio de 2008 às 22:30
Pressupondo que o agradecimento é também para mim, eu nada fiz. Tudo foi feito por ti, e por quem mais próximo de ti esteve. Passaste incólume pelo crivo das balas e estás verdadeiramente no lugar que mereces.

Parabéns pela etapa cumprida e que todas as outras o sejam de igual forma.

Cuida-te.

***
De KI a 19 de Maio de 2008 às 19:26
É engraçado constatar que as vivências maais dificeís são aquelas que mais nos fazem crescer.

Abraço.
De Laú a 22 de Maio de 2008 às 23:52
Fico feliz por teres alcançado esta meta. Eu sabia que tinhas força suficiente para aguentares até ao fim.

Já sabes que para mim vais ser sempre a minha caloirinha, a minha Piccola, a minha afilhada.

E não precisas de agradecer. Porque é bom sentirmos que não somos todos iguais e não despertamos todos o mesmo tipo de sentimentos.

Ti goxto Piccola

Comentar post

Creative Commons License
Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons.

© Marta Barbosa 2007

recentes scripta

Sibila est

Hipotermia (II)

Quarto de Pandora

António

Quiet Nights of Quiet Sta...

Catarse

RP sem Croquetes!

Por una Cabeza

Imortal

porta

Monólogos de Valium

Tardes de Saudade e um Ge...

...

Moinhos de Vento

Bilhete para o fim do dia

designed by Rui Barbosa