Sexta-feira, 4 de Abril de 2008

de profundis, valsa lenta

 

O meu espaço de reflexão está em suspenso. Como os jardins da Babilónia, mas sem qualquer tipo de espectacular característica. Muito pelo contrário. Os meus jardins suspensos estão assim mesmo, suspensos, porque a poesia começou a fugir de mim. Este pedacinho de uma aldeia global, florido em tons berrantes, está doente. Está a precisar da quarentena que as almas malditas precisam para deixarem de estar doentes, para deixarem de estar tão doentes.

Não sei se haverá força para os regar, tirar-lhe as ervas, falar com eles, tratar deles. Não sei se valerá muito a pena. Os meus jardins suspensos...

Quebrei, agora, esta minha quarentena, neste meu espaço de reflexão, por um suspenso segundo. Como numa dança. Uma valsa. Para dizer que os meus jardins suspensos não são os da Babilónia. São meus, são à minha medida. O meus jardins suspensos são ipsa ego.

Podem mesmo nem ser bonitos, mas são meus.

Pode ser que ninguém os compreenda, mas são meus.

Pode ser que realmente não façam sentido, mas são meus.

Meus. São o meu amor doente e datado, flores nascidas em pedras. Lindas.


A valsa é lenta, é sempre lenta. E quando rezamos para seja suspensa, para que esse segundo suspenso em que quebramos o silêncio seja mais que um segundo, vemos que as flores do nosso jardim murcham, porque o segundo é só um segundo. Um mísero e mesquinho que depois de morto nada fez rainha. Ou fez, mas foi um segundo só. E só as lágrimas regam os meus jardins suspensos. A minha Babilónia perdida em mim. E Ontem não te vi em Babilónia, não te vi em mim perdida. A valsa que danço, é uma dança sem par. Em que eu danço a contradança com os meus fragmentos; eles abandonam-me no fim da música, espalham-se no mundo na projecção que dou de mim aos outros. E eu fico só na minha Babilónia onde ninguém me vem dizer “ontem não te vi cá”.

A vida (ou a morte) é uma valsa lenta, onde rodopiamos sobre o eixo das profundezas do nosso ser.


Cansada de rodopiar esta valsa lenta, no eixo de uma profundeza que me assusta, recolho-me, novamente, ao silêncio. Não vou partir, vou descansar. Dos monstros do meu gueto. De mim... Do profundo.

música: Flutuo - Susana Félix
publicado por MB às 22:35
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4 comentários:
De Marina a 5 de Abril de 2008 às 16:18
Pois eu digo-te que os teus jardins suspensos são lindos. São lindos porque são teus e são lindos porque são lindos e não há motivo para uma coisa ser bela ou não.
É bom ler-te, é bom saber que hás-de voltar, quebrando aquele silêncio do qual dizes precisar.
Não te condeno por esse silêncio. Simplesmente quero que saibas que gosto de vaguear por este jardim e que me tocas a alma com muitas das tuas palavras. És verdadeiramente especial e, talvez por isso, o teu jardim suspenso seja o mais bonito de todos.
Descansa então, mas não partas nunca porque no meio de todos os silêncios, há quem aguarde que voltes simplesmente para poder vaguear um pouco mais nesse jardim tão especial que é o teu!
De Vasco a 5 de Abril de 2008 às 16:31
Eu estou aqui. Toda a gente que te adora também. Se precisares de par para a lentidão da tua valsa, avisa. E os teus jardins suspensos são bonitos, fazem sentido e há quem os compreenda. Ouses tu pensar o contrário e parto-te o pescoço. Vá, se calhar não, mas ameaçar costuma resultar e fazer as pessoas acordar.

Jamais haverá poesia adormecida em alguém que calada faz sonetos. A ´nica doença que vejo em ti, é a doença de não conseguires ver aquilo que vales. Pára e olha melhor...

E escreve pra nós! Escreve pra mim, escreve... Eu estou aqui.
De incongruente a 12 de Abril de 2008 às 01:34
Do vago e do profundo, tirar férias do mundo e irromper passados estender a mão a sonhos alados e porque não desafiar a esperança e tentar de novo ser criança olhando o que de melhor a vida tem e gostar de ti e quereres-te bem. Todos os jardins suspensos mas sempre uma alma que anseia mais, que reflecte e sabe seguir, que se recolhe descansando para refazer a bagagem e partir de novo à conquista do que nos ilumina: a vida e viver em todos os sentidos, sorrindo com quem nos faz ser mais gente.


Um abraço ;)
De Silvéria a 23 de Abril de 2008 às 14:07
Também não é a primeira vez que por cá passo, tanto que fiquei com pena quando aqui cheguei e vi que ias afastar-te do blog por uns tempos. Mas não te censuro, também já o fiz em tempos... coisa que, por vezes, é bem preciso!
Gosto da maneira como usas as palavras, ou não fosses tu uma verdadeira menina de CC que gosta de escrever pelo simples prazer de escrever, apenas isso. Coisa que não é só para quem quer, é para quem pode...
Descansa sim o tempo que precisares e, quando voltares, será por ti e apenas por ti... quando as ideias estiverem no lugar e quando conseguires escrever algo que suponho que queres, algo alegre!
Quando voltares, estarei cá novamente para ler a minha querida Anne Frank

Muitos beijinhos,

Silvéria.

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© Marta Barbosa 2007

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