Segunda-feira, 25 de Fevereiro de 2008

Postal de Memórias

Já lá vão 167 anos (uma vez que o dia era o de 25 de Fevereiro de 1841) que um senhor nasceu, em Limoges, para mostrar que a arte se faz de pequenas coisas, de pequenos sinais, borrões de tinta e expressões de sentido. Também a vida é assim – a vida imita a arte, segundo Oscar Wilde. Também podemos ver o que nos envolve como pequenos borrões de tinta que ao longe formam uma bela imagem. Ao perto, pode, muitas vezes, sugerir imperfeição, algo que nos custe a admitir que seja belo, mas se virmos numa visão global, com os olhos limpos de lágrimas, a pintura é de facto muito bonita.

 

Em Setembro, longe de imaginar o quanto isto poderia fazer sentido para mim, escrevi um conselho a um grande, enorme, imenso, desmesurado, universalmente expandido amigo meu, depois de ter olhado para um postal que representava um quadro de Renoir que a minha amiga e mãe-escolar Paula Silva me oferecera no final do meu 12º ano. Deixo-o aqui, como homenagem ao grande pintor. Deixo-o aqui, também, como homenagem ao meu amigo.

 

 

À sombra de Renoir

 

Por muito que a paisagem mude, neste postal,

saberás que a mesma mulher estará sempre

sentada entre os impressionismos da despedida.

Saberás que ela deseja, subtilmente, que o futuro

não chegue e não lhe vire a página do livro

fechado no seu regaço.

Saberás que também tu o desejas. Que também tu

queres que o dia se suspenda e permaneça nesta

estação onde te recusas a embarcar.

O teu comboio só parte quando

estiveres disposto a reerguer o teu castelo de nuvens.

E tu sabes que isso é a morte adiada de

todas as tempestades que trazes encarceradas no peito

e que te encarceram um voo mais alto.

 

Levanta-te dessa sombra de Renoir, abre o peito

ao vento. Deixa que as cores deste postal

impressionem as tempestades que tens que varrer com

minúcia de ourives. Talha o teu coração na

manta dourada da filigrana do sonho. Só assim

poderás acenar, da tua carruagem, às memórias sofridas

que ficaram a dizer-te adeus, da estação que parte.

 

publicado por MB às 13:41
link do post | explanare | favorito
|

Creative Commons License
Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons.

© Marta Barbosa 2007

recentes scripta

Sibila est

Hipotermia (II)

Quarto de Pandora

António

Quiet Nights of Quiet Sta...

Catarse

RP sem Croquetes!

Por una Cabeza

Imortal

porta

Monólogos de Valium

Tardes de Saudade e um Ge...

...

Moinhos de Vento

Bilhete para o fim do dia

designed by Rui Barbosa