Quinta-feira, 14 de Fevereiro de 2008

Utopia

 

Memórias de um olhar


Olho-te, então, contra a perspectiva do efémero. Contra a corrente

que te arrasta pela eternidade para bem longe. Olho-te como se

tudo acabasse agora e te continuasse a olhar na perpétua luz que

nos afaga. Olho-te como se o efémero nada importasse, como se o

breve instante em que me tocas durasse até a um outro, mesmo que

entre eles se instalem vidas, milénios, angústias e crepúsculos.

Olho-te, então, contra a perspectiva do efémero porque sei que

não partes, que não podes partir, que não sabes partir. Olho-te

na perspectiva de um ininterrupto amor que, também, não sabemos definir.

E, apesar de não o sabermos definir, sabemos vivê-lo: no veemente olhar

que nos leva para outra dimensão, no toque que arrepia, no beijo que se cala,

no silêncio que grita “Amo-te”, nas mãos que não entrelaçamos, mas

que balouçam lado a lado, companheiras do efémero para sempre.

Olho-te como se o mundo e a eternidade coubessem nos teus olhos.

Porque quando te olho são, realmente, só os teus olhos que vejo. E neles,

não o espelho da tua, mas da minha alma.

E é o saber que vivendo em ti, vives em mim que torna

o efémero irreal. Como se, de facto, a morte não

fosse capaz de manipular as nossas vidas, nem o tempo fosse capaz

de aplacar as tempestades que nos amarram um ao outro, nem o próprio

Amor fosse capaz de nos ludibriar com falsos vislumbres de felicidade.

Olho-te, então, contra a perspectiva do efémero,

porque sei que não há longe nem distância,

porque sei que o tempo é um adereço,

porque sei que a morte é um embuste;

porque sei que quando te olho a eternidade pára.

E somos só eu, tu e os nossos olhos.

 

Aqui está. Publiquei-o aqui há um ano. Publico-o, novamente. Uma questão de positivismo...

publicado por MB às 00:29
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2 comentários:
De Ki a 14 de Fevereiro de 2008 às 11:01
Estou atordoada...... demasiado bonito, intenso e sentido, tudo o q sonhamos e q alcançamos em momentos efémeros quase utópicos mas reais, não são eternos, podem permanecer como os jardins se cuidados reciprocamente...

Tu és especial Marta e q ninguém te faça acreditar no contrário.

Um beijo com ternura e sorrisos :)
De AEu a 15 de Fevereiro de 2008 às 00:41
De facto, toda a nossa vida, de que serve, senão para que dela façamos o melhor uso e até abuso, num único sentido – ser feliz! Não faz sentido qualquer outra utilização que dela façamos. Seremos hipócritas se, para além de tentarmos transmitir o contrário, também nada fizermos para a construir.
Cada ser feliz, consegue ajudar o mundo a ser melhor; a infelicidade em nada colabora para o colorido da Primavera. E o que faz um sorriso senão contagiar aqueles que nos rodeiam... e mais, o bem que faz a quem o transmite.
Repara e revê quando é que ELE tem mais esplendor!? Nas tardes quentes de um horizonte forte ao sol poente! Ou, mesmo com a luz artificial de um qualquer foco, fabricado pelos homens. Na vertical, na diagonal, em qualquer uma das faces, a qualquer hora, precisa de ter luz, de irradiar.
O memorial do nosso ser não é diferente – precisa de calor, de luz... a busca da minha felicidade, em que eu sou actor principal, mesmo que o papel seja secundário. E mais ainda, e não menos importante – estar sempre acima do horizonte, num lugar privilegiado para observar – ser o primeiro a ver o sol nascente e o último a testemunhar o sol poente. Ergue-te e caminha! Beijinhos, AEu

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© Marta Barbosa 2007

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