Segunda-feira, 7 de Janeiro de 2008

Palimpsesto

 

Vou folheando o caderno dos dias e das horas em que o tempo não passa e se decide manter em angústias forçadas. As páginas ficam em branco, numa brancura dolorida do que não escreveste.

O que soube de ti - a água claramente turva que corria em ti e soube - não foi lido no teu caderno de dias e horas. Deste-te a conhecer por capítulos, e eu pensei que todas as prolepses e analepses e elipses fossem os recursos de estilo que usavas para embelezar a tua vida para mim. Mas não... Deste-te a conhecer pelas partes que cativavam, pelos capítulos de forte tensão emocional, aqueles que eu devia ler para continuar a ter esse manuscrito maldito à cabeceira.


E hoje, ao folhear o caderno dos dias e das horas que perdi a ler o teu livro, sinto que nunca te devia ter entregue o Nobel. O teu registo era, de facto, muito fraco e a tua retórica não era suficientemente boa me fazer continuar presa à tua leitura.


Um autor tem o dom de manipular as personagens. Eu era uma das secundárias, movida de peão para rainha num jogo de estrategas. Era puxada para o capítulo que criavas à medida do que achavas ser suficiente para mim. Mas, era nos outros capítulos que vivias a adrenalina e a loucura da pureza da verdade.


Um dia, vou pedir a alguém para aceitar das minhas mãos o Nobel do romance onde sempre quis ser personagem principal.



Vou folheando o caderno dos dias e das horas em que o tempo não passa e se decide manter em angústias forçadas. A tinta com a qual escrevi o início da Primavera foi sugada para o interior do papel, num palimpsesto contemporâneo onde há-de ser sempre possível escrever uma nova Primavera que comece, mesmo que os Invernos se sucedam ininterruptamente nos Outonos da nossa vida.


publicado por MB às 23:48
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4 comentários:
De AEu a 8 de Janeiro de 2008 às 23:39
Na verdade, mesmo nua, a vida é feita de realidade, ilusões, e até visões. De forma mais ou menos complexa, cada um de nós inventa um conjunto de caracteres, com o qual vai escrevendo as palavras que constituem o nosso Grande Livro. Este abecedário pessoal, que a maior parte das vezes transcende as regras linguísticas com que nos exprimimos, nem sempre estendível pelo “outro”, e nem sempre nós conseguimos entender o do “outro”. Quando isso é possível, sem esforço, ao que eu chamo compatibilidade natural, aí a relação é serena e harmoniosa.
Mas temos um problema, isso não existe! Pura utopia! Quando muito, haverá algumas fatias desse doce, que nunca conseguimos encontrar inteiro, e essas sim, devem ser saboreadas intensamente… são demasiado apetecíveis, e também demasiado raras.
E não te massacres, porque nem sempre os Nobel são bem atribuídos! Os humanos erram, mas não podem, por isso, deixar de procurar o livro ideal.
Beijinhos, AEu
De ______ a 9 de Janeiro de 2008 às 14:30
Palimpsesto... para ficar de novo em branco? Para reescrever? E nos bastidores da memória o pergaminho não se manterá sempre inolvidável para q se aprenda e apreenda e se saiba sorrir nos sabores que um dia se quiseram? A verdade de cada um de nós é tão difícil de manter... mas como dizia Ricardo Reis: "Para ser grande sê inteiro..." talvez se fizermos sempre o que somos seja a única forma de vivermos o melhor que sabemo. Por vezes ao não sermos personagem principal teimamos em conquistar esse papel e mesmo existindo honestidade do outro lado no fim vamos sentirmo-nos sempre enganados... quando o maior engano fomos nós...

Quantas coisas voltaríamos a fazer se pudéssemos sempre voltar atrás!?

Um beijo grande :)
De Laú a 9 de Janeiro de 2008 às 22:35
"Eu era uma das secundárias, movida de peão para rainha num jogo de estrategas."
Tu nunca merecias ser menos do que a rainha...
E já sabes... um dia alguém te vai dar o papel principal o livro da sua vida e aí vais escrever o teu final feliz...
Na minha vida, não és uma personagem secundária... És uma personagem que vai andando ao lado da principal (eu) e sem a qual a principal não viveria.
Uma beijoka da madrinha
De KI a 11 de Janeiro de 2008 às 12:54

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© Marta Barbosa 2007

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