Sábado, 10 de Novembro de 2007

Carta (restritamente) Aberta

“Querias que eu escrevesse, eis-me a escrever. Podia falar sobre muita coisa, podia, eu sei que podia, mas não sei se consigo. Podia dizer que é fácil falar, e realmente é, mas posso, de antemão, esperar que tudo o que escreva seja pó. Ao vento… A espalhar-se como cinza. Sinto-me água parada., estagnada em mim mesma.

Querias que eu escrevesse e eu não sei o que escrever. É como se o vidro da retina se tivesse toldado em fumos e névoas de incertezas que pensei serem certas, mas que não o são. Nada é definitivo, pois não?

Ás vezes escolhemos caminhos demasiado tumultuados para seguir e não chegamos ao objectivo dentro do orçamento de tempo que os outros estipulam. Sei que excedi o tempo. Sei que não há tempo para o tempo se revolver na minha frustrada angústia. Barraram-me a passagem, não cheguei ao meu objectivo principal, nem a qualquer outro que o pudesse complementar.

Sou mais um Pessoa perdido dentro da própria mesquinhez de condição. Tenho o meu eu fragmentado e a minha existência divida em heterónimos que se sobrepõem sucessivamente. Queria ser eu há duas semanas atrás. Mania de complicar a vida… Sei que só eu a complico. E só eu a posso descomplicar.

Preciso de canalizar toda a tralha a arrumar para um canto recôndito de mim e guardá-la aí mesmo, para não ter que continuar a tropeçar no que não me deixa ver o meu caminho.

Será que me emprestas uma bússola?”

música: Caminhando até ti - Maria Léon & Rui Veloso
publicado por MB às 19:43
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4 comentários:
De Claúdia a 10 de Novembro de 2007 às 23:10
Está lindo o que escreveste. Muito sentimento que tens dentro de ti! E pôes-no cá para fora de uma maneira tão bonita!!
Beijoka
De Catatau a 11 de Novembro de 2007 às 14:33
Realmente Pessoa faz mal a muita gente!

Ainda te vou ver um dia destes num qualquer café a beber o teu copito de absinto, fumar um cigarro e escrever sobre gatos e máquinas e pastores.

ACORDA RAPARIGA!

Abre os jornais, ouve e vê os noticiários da rádio e tv e descobrirás que és uma afortunada. Há pessoas que realmente tem razão de queixa da vida que tem.
De MB a 12 de Novembro de 2007 às 17:40
Bem,
Folgo por saber ter novos visitantes, não obstante eles não perceberem o conteúdos dos textos... Mas um texto é um lugar de pluridade de sentidos. Cada um escolhe por onde quer ir!
Quanto a passar a vida num café a escrever, como o Pessoa... Como é que o caro comentador descobriu o sonho da minha vida?

Volte sempre
De Vasko a 22 de Novembro de 2007 às 14:38
Todo o caminho titubeante é bem feito se for em companhia. Esperei o tempo necessário para poder comentar este texto em condições, e sabes bem porquê. Não acredito que sejas mais um Pessoa, sabes também o que penso dele. Acredito isso sim que nunca o tempo se excederá para a perenidade dos sentimentos, e nunca queiras ser aquilo que já foste, porque aquilo que és é sempre melhor, porque é actual e real. Vive cada momento como se fosse o último, aproveita bem porque nunca se sabe o amanhã, e podes perder as chances duma vida inteira.
Dei-te uma bússola ontem. Não reparaste?

bj fraterno ***

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© Marta Barbosa 2007

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