Domingo, 4 de Novembro de 2007

Se eu te pudesse abraçar...

Tenho viajado muito de comboio, nos últimos tempos. É um sítio privilegiado de observação, de contacto com realidades que deixam de ser exteriores à nossa durante cinco, dez ou vinte minutos, ou até uma viagem inteira. Não é a típica atitude de quem não tem vida própria e precisa da vida dos outros, mas distraio-me muitas, tantas, demasiadas vezes a ouvir a conversa dos passageiros que me rodeiam. Há histórias para todos os gostos: do crime de faca e alguidar, aos telefonemas apaixonados que se perdem pela janela na paisagem que foge, sonos cansados, o dia de trabalho que não correu bem, os desabafos de uma vida malvada e traiçoeira... Histórias de vida... Carruagens de histórias de vidas tão perdidas ou mais do que as nossas.

Fazia mais uma viagem em direcção a Braga, Auschwitz de estimação, na passada semana, como tantas vezes faço, quando me deparei com uma figura agitada dois os três bancos à frente do meu. Vinha virado para mim e ligeiramente inclinado para o corredor de passagem. Estava inquieto no banco, olhava para o relógio vezes sem conta. Era um homem normal, trazia um pequeno saco de bagagem, nada de especial naquela figura para me cativar tanto. Quase inexplicável era, também, a impaciência. O comboio não estava atrasado, seguia o seu curso normalmente.

Na última estação antes de Braga, o homem levantou-se, pegou na bagagem e colou-se à porta. Começava a ficar intrigada com tanta urgência em sair.

Foi o primeiro passageiro a abandonar o comboio na estação terminal. Quando eu saí vi duas crianças, entre os quatro e os seis anos, a correr em euforia para o colo daquele senhor, gritando a plenos pulmões pelo pai. Atrás das crianças, uma senhora que sorria com uma lágrima no canto do olho...

 

Porque quando se ama, os minutos que passamos longe são mais do que torturantes e a impaciência cresce à medida que eles passam. Porque eu sei, como todos sabem, o que é ter saudade de quem está longe e nos ilumina o dia em intermitências de telefonemas e mensagens escritas. Porque também quero apanhar um comboio e sair a correr para me poder perder em dois braços, em dois olhos, num peito onde moro...

publicado por MB às 21:43
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6 comentários:
De Rui Barbosa a 4 de Novembro de 2007 às 22:00
Era deste post que eu estava à espera para deixar por cá um comentário.

Quando estou longe de quem gosto, prefiro manter-me ocupado, abstrair-me de pensar - e digo-o sem ironia. Os minutos que antecedem um reencontro podem ser mais dolorosos do que toda uma ausência.

Aparte o cliché, sabe bem ler o que escreveste. Imagino que tenha sabido bem partilhar o que sentiste.

Invejo-te.
De João Oliveira a 5 de Novembro de 2007 às 13:27
Se eu te pudesse abraçar
e depois falar contigo
tinha tanta coisa para te contar
meu irmão e meu amigo!

Às vezes são pequenos gestos que vemos no dia-a-dia que nos fazem pensar no que realmente é viver a vida. Aos poucos vamos crescendo e aprendendo a viver melhor a nossa vida mas duma coisa estou certo: no que toca a amigos e família todo o tempo que temos de esperar para os ter nos braços parece sempre uma eternidade!

Um beijo,
--João Oliveira--
De KI a 5 de Novembro de 2007 às 13:38
Se eu te pudesse abraçar no balanço dum comboio e chegar até ti novamente...
Rever a paisagem que já soube de cor, trilhando recordações ao compasso do relógio sempre rpesente...
Se nos teus olhos voltasse a encontrar o brilho que me esperava...
Se te pudesse abraçar eu já não queria mais nada...

Espero que Braga mude de nome rapidamente :)

Boa semana.
De Marina =P a 5 de Novembro de 2007 às 16:17
Sentir saudades é terrivel... ainda assim invejo quem passa uma viagem olhando para o relógio, e que quando a viagem acaba tem dois braços à espera, palavras de carinho,amor...
Porque a pior saudade é a de esperar infinitamente olhando o relógio e não haver paragem ou, quando a há, não haver nela uma presença que nos abrace, um sorriso que fale, um pouco de atenção.
A solidão é dura, a sudade é dura... espero que os dois braços por que anseias te envolvam no mais doce do abraços ja que eu, perdida neste mundo, estou simplesmente só mesmo quando à minha espera na estaçao seguinte está a maior das multidões...
bj

goxti
De Mestre a 5 de Novembro de 2007 às 23:20
Caí aqui graças à KI e....ainda bem!
Gosto do que escreves.
E como rói a saudade e o tempo parece estar parado quando regressamos aos braços de quem nos diz algo....
Um beijo
De http://shakermaker.blogs.sapo.pt a 7 de Novembro de 2007 às 00:49
Ora viva!

Como eu sou um fulano paciente, diria que quanto mais saudades tenho, menos pressa tenho de chegar.
É preciso manter a calma e esperar até à próxima estação. Óptimo post.

Um abraço...
shakermaker

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© Marta Barbosa 2007

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