Terça-feira, 21 de Agosto de 2007

Hoje

Hoje, só hoje, porque é hoje, queria que as palavras ficassem comigo e dissessem o que quero dizer sem amenizar nem racionalizar o que me vai cá dentro. Queria. É um capricho, como tantos outros. Queria que o meu vocabulário fosse capaz de descrever o tempo que passa, na cegueira da justiça. E que soubesse mostrar a evolução desse tempo, sem deixar de parte o mais pequeno sopro. Porque tudo o que temos cá dentro é indizível. Ao exprimir, tudo é desvanecido pela razão. Perde a intensidade um bilião de vezes. E aqui está a minha grande angústia, nunca conseguimos ser verdadeiros com as pessoas. Porque quando dizemos “gosto de ti”, as palavras por mais intensas que sejam, mostram uma ínfima parte de como realmente são sentidas. Devíamos dizer “gosto de ti, um bilião de vezes mais do que aquilo que digo.”

Um filósofo que já me tirou o sono disse “os limites da minha linguagem são os limites do meu próprio mundo” (Wittegenstein). A minha linguagem limita-me ao ponto de me castrar a expressão do que aqui corre.

Mas, quando os olhos se perdem noutros olhos, e as mãos se unem num passeio que passeia a vida, o vento vem e diz ao ouvido tudo o que a linguagem da razão não permite. Porque o silêncio sabe embalar a alma para aquela outra dimensão onde as palavras não são levadas a sério, onde só a presença das pessoas mostra que a distância não existe.

Porque o tempo passa e realça as coisas boas da vida e ensina-nos a dizer pelos olhos “gosto de ti”. E a sermos justos quando dizemos “gosto de ti”. Sem ter que acrescentar “um bilião de vezes mais do que aquilo que digo” ao “gosto de ti”. Porque sim, porque queria que hoje, só hoje, porque é hoje, as palavras ficassem comigo. Porque queria dizer “gosto de ti” e conseguir mostrar ao mundo um pedacinho só daquilo que sinto.

música: Encosta-te a mim - Jorge Palma
publicado por MB às 04:54
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2 comentários:
De KI a 22 de Agosto de 2007 às 10:31
Mas o mundo não tem que saber, porque o mundo é o verdadeiro castrador de tudo o que pensas, é ele que te impõe regras, normas e padrões que te ostraciza quando não ages dentro da 'normalidade' com que ele uniformiza na busca de um comportamento generalizado para que racionalizemos as nossas emoções. Apenas na liberdade do teu 'eu' e sendo leal a ti própria és TU, quando a linguagem das palavras não chega todas as atitudes , a química e a física dos cinco sentidos falam mais alto que qualquer 'amo-te' banalizado numa sonoridade já tão monocórdica que se desprovém de significado, só as atitudes do 'outro' te oferecem segurança, só no patamar da confiança e amizade se constroem pontes, estradas e caminhos secretos que estreitam o abismo que existe entre dois mundos o teu e o de quem quer que seja que te relacionas ( seja qual for a relação) as palavras nasceram para que o entendimento fosse necessário...o entendimento de almas não carece de sons...

Mas tu sabes tudo isso... "vizinha de mim"

( verdade filosófica esse " Encosta-te a mim"... )

beijos

De AEu a 23 de Agosto de 2007 às 17:40
Colega, essa força do teu sentimento existe! Eu sei que existe porque há fases da nossa vida em que é possível que exista. Eu digo mais, é sempre possível existir! A grande questão é que a alma gémea não existe, e esse sentimento para ter durabilidade tem também de ter reciprocidade. Aí reside o fracasso do GOSTO DE TI até à eternidade! Nós podemos e devemos ser felizes, e o até à eternidade depende sempre de uma relação biunívoca! Ora como sabes, ou se não sabes bem, vais aprender, a relação é em muitas fases da nossa vida terrena, apenas unívoca! Assim sendo algo falha. Havendo univocidade, o GOSTO DE TI só é necessário dizer uma vez, ou até nem dizer, basta olhar! A questão é quando o OUTRO nem te vê nem te ouve!
Mas, continuo a dizer, essa força de sentimento é importantíssima! E digo-te, com tristeza, que é impossível ser eterna! Para além de uma exigência contínua, na sua construção, tem e terá muitos picos e muitos vales! Mas se conseguires manter acesa a chama... como diz a canção Aint no mountain high enough ..."
Beijinhos.

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© Marta Barbosa 2007

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